“Na mobilidade urbana, a tecnologia tem de servir as pessoas, não o contrário”

Jorge Pinho de Sousa, presidente da Associação ITS Portugal, em entrevista ao jornal "Público", defende que a mobilidade nas cidades vai depender fortemente da integração entre tecnologia, planeamento urbano e participação dos cidadãos.

Como será a mobilidade nas cidades do futuro? Em Portugal a mobilidade urbana atravessa um momento de transformação, com uma adopção rápida de tecnologias que prometem tornar o transporte mais eficiente, sustentável e inclusivo. Especialistas alertam, no entanto, para o facto de os avanços tecnológicos e a inovação nos transportes e na mobilidade só cumprirem o seu verdadeiro potencial se houver planeamento integrado e uma abordagem centrada na qualidade de vida dos cidadãos.

A integração de tecnologias “inteligentes” e a participação cidadã são, de facto, essenciais para criar cidades mais inclusivas, seguras e agradáveis para viver, defende Jorge Pinho de Sousa. Nos últimos anos, as cidades portuguesas e as áreas metropolitanas têm enfrentado desafios crescentes na área da mobilidade, com o crescimento dos modos activos (caminhar, uso de bicicletas e trotinetes) ou um progressivo alargamento dos transportes públicos a zonas periféricas e rurais. Para entender melhor como é que a tecnologia pode transformar este cenário, conversámos com Jorge Pinho de Sousa, presidente da Associação ITS Portugal,, investigador do INESC TEC e professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

O que faz a Associação ITS Portugal e qual é o seu papel na mobilidade urbana?

A Associação ITS Portugal é um organismo que promove a partilha de informação e de experiências na investigação e implementação de soluções inteligentes de transporte, integrando tecnologia, planeamento urbano e políticas públicas, e tendo como missão contribuir para uma mobilidade mais segura, eficiente, sustentável e conectada. Nesse sentido, advoga uma utilização mais racional dos transportes, que no caso da mobilidade urbana passa, em grande parte, pela valorização da intermodalidade, ligando os transportes públicos (nas suas várias formas), os modos activos (incluindo caminhar, a bicicleta, as trotinetes), os automóveis particulares, a partilha de veículos e as soluções flexíveis de transporte sob procura.

A Associação reúne autoridades locais, operadores, empresas, centros de investigação e especialistas na área dos Sistemas e Serviços Inteligentes de Transporte (ITS).

Como se pode descrever a evolução da mobilidade urbana em Portugal?

Dispomos hoje de tecnologias e ferramentas relativamente acessíveis, mas de implementação nem sempre fácil, que podem promover a eficiência nos transportes, a intermodalidade e a inclusão social. Em muitas regiões portuguesas, especialmente nas periferias das cidades, onde a procura é dispersa e irregular, existem vários sistemas de transporte complementares ao transporte público tradicional e ao transporte individual em carro, como é o caso, por exemplo, dos sistemas de transportes flexíveis, a pedido (designados em inglês por “Demand Responsive Transport”) legislados no país desde 2016. Estes transportes, que funcionam como um meio-termo entre o transporte público regular e o transporte individual, permitem criar rotas e horários ajustados às necessidades específicas dos utilizadores esporádicos, em regiões de baixa densidade, na periferia das cidades ou em zonas rurais.

Estas soluções, que se têm vindo a generalizar no nosso país, são particularmente importantes para pessoas idosas, com mobilidade reduzida ou recursos limitados, constituindo um importante factor de inclusão social e de combate à “pobreza nos transportes”, mas a sua implementação exige em geral o recurso a sistemas avançados de informação e de apoio à decisão, com a criação de call centres, ou de aplicações informáticas específicas.

Por outro lado, a existência de informação em tempo real sobre os transportes, nas paragens de autocarros ou numa aplicação do telemóvel, permite a quem se desloca organizar-se melhor e a quem gere os sistemas, fazê-lo de uma forma mais eficiente e sustentável. Também a gestão do espaço público ou de parques para o estacionamento de viaturas privadas pode recorrer a tecnologias digitais e a ferramentas de apoio à decisão que reduzam o tempo gasto na procura de lugares, com ganhos significativos ao nível ambiental e de congestionamento de tráfego.

Mas, para que tudo funcione, é preciso que a mobilidade na cidade seja repensada como uma rede integrada, e não como uma mera soma de soluções fragmentadas e isoladas.

Qual é o papel da tecnologia na criação dessa rede de mobilidade integrada?

A adopção da tecnologia, nas suas múltiplas dimensões, não pode constituir um fim em si mesma; ela deve ser usada para simplificar e integrar os serviços de mobilidade. Antes de automatizar, devemos tornar os sistemas mais simples e fáceis de usar, com informação clara e atempada, e evitando que as ligações entre modos de transporte ou as interfaces modais constituam obstáculos ou barreiras à mobilidade. Temos infelizmente muitos exemplos de integração deficiente, como na estação de São Bento, no Porto, onde a transição entre o metro e o comboio suburbano ou os autocarros é desconfortável e insegura, ou ciclovias estreitas e fragmentadas que não cumprem o objetivo de uma mobilidade segura e confortável.

Sistemas de pagamento electrónico, gestão de parques e digital twins — reproduções digitais da cidade que reflectem, em tempo real, o seu estado — são ferramentas que permitem reorganizar rotas, optimizar espaços e antecipar ou condicionar fluxos, tornando a cidade mais eficiente e segura.

Actualmente, o recurso ao 5G, com velocidades de comunicação muito altas, e latências muito baixas, permite conectar um número massivo de dispositivos, criando as condições para uma rápida expansão dos veículos autónomos, como parte essencial dos serviços de mobilidade nas cidades.

Mas é importante lembrar que cada cidade tem um contexto muito próprio — geografia, história, cultura, densidade urbana — e as soluções devem respeitar essas particularidades. Não se trata apenas de replicar modelos de outras cidades, mas de desenhar um roteiro de implementação de soluções coerente, pensado para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos e que seja flexível e adaptável no tempo às mudanças de comportamentos e de tecnologias.

Como deve ser a participação cidadã nesse processo?

A participação activa e atempada dos cidadãos no desenvolvimento de soluções de mobilidade é essencial. Muitas vezes, são implementadas soluções tecnicamente “avançadas” sem que os técnicos ou as autoridades tenham devidamente em conta quem vai usar os sistemas. Isso cria barreiras de aceitação e limita a eficácia. Devemos envolver as pessoas, não apenas nas associações ou fóruns institucionais, mas de forma directa, para entender as necessidades reais, no seu acesso aos locais de trabalho, aos serviços de saúde, às escolas, ou a zonas comerciais ou de lazer.

Esta participação deve passar pelo recurso a ferramentas de consulta aos cidadãos para a identificação de necessidades e expectativas, mas também pela realização de focus groups ou de encontros de carácter informal, em cafés, clubes ou zonas comerciais. O envolvimento nestas iniciativas, dos municípios, das autoridades, dos operadores de transporte, do sector público, academia e empresas permitirá melhorar a qualidade de vida nas cidades com transportes mais seguros, eficientes e sustentáveis. A mobilidade não é um fim, é mais um instrumento para que a cidade seja feita de lugares onde as pessoas gostem realmente de viver.

Como imagina a mobilidade urbana daqui a dez anos?

Estou convencido de que será mais fluida, natural e confortável, constituindo um componente natural e não agressivo da vida nas cidades e contribuindo de forma clara para a qualidade de vida dos cidadãos.

As tecnologias, quando devidamente integradas, melhoram a mobilidade, garantem a segurança nas deslocações e promovem a inclusão social. Os transportes não precisam ser muito rápidos, mas devem permitir que as pessoas se desloquem de forma agradável e segura, com prioridade para peões, bicicletas e transportes públicos eficientes. O conceito da cidade de proximidade, ou cidade dos “15 minutos”, é fundamental para a gestão da mobilidade: serviços e bens devem estar acessíveis sem exigir longas deslocações, contribuindo assim para uma melhor qualidade de vida.

Além disso, a mobilidade futura deve estimular a autonomia das pessoas, com particular ênfase para as crianças e os jovens. Hoje, as crianças da chamada ‘backseat generation’ são conduzidas para todo o lado nos automóveis dos pais e dependem fortemente do transporte motorizado, com uma diminuição da actividade física, das competências sociais e da independência, e criando problemas sérios de saúde e de desenvolvimento.

Precisamos criar cidades onde seja seguro caminhar, andar de bicicleta ou usar transportes colectivos, aumentando a segurança com sistemas de monitorização e controlo inteligentes, que limitem dinamicamente os limites de velocidade e criem alertas nas passadeiras.

Que exemplos podem inspirar e apontar novos caminhos para outras cidades?

Há hoje inúmeros projectos em que se envolvem directamente os munícipes no planeamento urbano [como a iniciativa promovida pela Universidade do Porto para repensar a mobilidade na VCI]. Estes projectos mostram como a participação cidadã, aliada a ferramentas digitais e ao planeamento integrado, permite redesenhar ruas, ciclovias, parques e transporte colectivo de forma coerente. Não se trata apenas da adopção de tecnologias avançadas, mas de criar cidades mais humanas, agradáveis e seguras.

Em alguns países europeus, já existem exemplos de centros urbanos sem circulação automóvel, combinando transporte público eficiente, zonas verdes e espaços de convivência. Em Portugal, podemos adaptar essas soluções, mas é fundamental que a mobilidade esteja no centro das políticas urbanas, não apenas como um elemento funcional, mas como um instrumento de qualidade de vida e sustentabilidade ambiental.

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